Entrevista com Fabi Melo, roteirista e diretora paraibana
- Cinema de Bairro

- 8 de mai. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 8 de mai. de 2023
Arte, cuidado e história
O Projeto Cinema de Bairro, financiado pela Universidade Estadual da Paraíba, exibi produções audiovisuais paraibanas na cidade de Campina Grande. Permitindo o acesso gratuito a lazer e valorização a cultura local.
Através desse trabalho atravessamos pontes que nos conectam às pessoas (ou a sua arte) inspiradoras. A extensionista do Projeto, Karolina Matias, entrevistou a roteirista, produtora e comunicadora Fabi Melo, abordando um pouco sobre sua história e processos nas suas criações. Confira na íntegra abaixo:

Foto: Arquivo Pessoal
K.M: Fabi, você é publicitária por formação, uma comunicadora. Durante a faculdade já trabalhava com audiovisual?
F.M: Sou Comunicadora Social com habilitação em Publicidade e Propaganda e foi lá onde dei os primeiros passos no audiovisual. Estagiei em um portal de música eletrônica, produzíamos mini vídeos das raves e festas para o site. Além disso, trabalhei em uma agência de publicidade, onde eu produzia os comerciais. Eu lembro que um certo dia a diretora da agência não pôde comparecer, eu tive que assumir a direção do programa. Mesmo que de forma prematura, eu aceitei o desafio e foi de grande valia.
K.M: A partir desse contato decidiu seguir estudando a produção audiovisual ?
F.M: Eu soube da turma pioneira do curso de Graduação Tecnológica em Produção Audiovisual, Rádio Tv e Cinema da UniFacisa, em Campina Grande. Esse curso me ensinou bastante. Fizemos diversos curtas de forma voluntária e amadora. Erramos, acertamos, enfrentamos perrengues, nos divertíamos e aprendíamos juntos. Exerci as mais variadas funções dentro de um set de filmagem. E me identifiquei, de fato, com o núcleo de direção. Hoje sou roteirista, diretora e trabalho também como assistente de Direção e continuísta.
K.M: As telas te chamaram atenção em um momento anterior, na sua infância?
F.M: Sim. A arte em geral, me atravessa desde pequena. Para falar disso, eu não posso deixar de citar Patrícia Oliveira, foi minha babá, era atriz aqui em Campina Grande nos anos 90. Eu ficava nas coxias do Teatro Municipal, enquanto Patrícia ensaiava. Foi então que eu passei a “brincar de criar meus próprios espetáculos” na garagem da minha casa. Eu chamava meus amigos da vizinhança, montava cenários improvisados com caixas de papelão, dizia a personagem de cada um, colocava dois lençóis pendurados em um varal, virava uma cortina e nos apresentávamos para as nossas famílias. Chega a ser engraçado perceber a conexão que essa brincadeira tem com o que eu me tornei.
Eu chamava meus amigos da vizinhança, montava cenários improvisados com caixas de papelão(...)
K.M: Então surgiu a “Dedo Verde Filmes” sua Produtora independente, como foi o processo de criação?
F.M: Meu primeiro curta metragem enquanto roteirista e diretora foi em 2010. Naquele momento, não pensava em abrir empresa, pois trabalhar com o audiovisual na Paraíba, de forma exclusiva, parecia algo muito distante. Infelizmente viver de audiovisual ainda é muito difícil, tendo em vista que não temos nenhum edital de financiamento público a nível estadual ou municipal. Foi preciso acontecer uma pandemia, para que, com a Lei Federal Aldir Blanc, mais projetos audiovisuais pudessem ser executados. A Dedo Verde começou a existir em 2020, pela necessidade de ter um CNPJ. Num momento de duras perdas mundiais, durante a maior crise sanitária que o Brasil já teve, em um cenário político preocupante, principalmente para a cultura brasileira, não me veio outro nome para a empresa que não fosse esse. Era o meu desejo de mudança! Assim como o personagem Tistu, do clássico de Maurice Druon, “O Menino do dedo verde” (um dos meus livros favoritos), eu queria fazer brotar esperança e curar feridas através da arte.

Foto: Arquivo Pessoal
K.M: Quais foram suas últimas produções?
F.M: Enquanto diretora e roteirista, lancei em 2022 o curta metragem “Nem Todas as Manhãs são Iguais” e agora em 2023 será lançado a animação “Para onde vou?”. Em paralelo, gravei agora em Janeiro o longa metragem “Malaika”, de André Morais, em Catolé do Rocha, no qual assino a Continuidade do filme.
K.M: Quais os principais festivais participou na Paraíba?
F.M: Eu amo festivais e mostras no interior, principalmente onde o Cinema dificilmente chegaria, se não fosse essa janela tão importante. Venho viajando pelos festivais desde 2010. O primeiro festival que conheci foi o Fest Aruanda, em seguida participei e trabalhei do Comunicurtas (uma das principais portas que eu tive no começo de tudo). No sertão eu conheço/conheci o Cinema com Farinha em Patos, o Festissauro em Sousa, Mostra Acauã em Aparecida, Cine Sítio em Nazarezinho, Cine Açude Grande em Cajazeiras e o Curta Coremas. No cariri já produzi a Mostra Sumé de Cinema, participei do Cine Congo, Festcine Taperoá e do Festival de Cinema de Coxixola. Participei ainda do Curta Picuí, Curta Cuité, da Mostra Djaniras em Remígio, do Cine Forte em Cabedelo e trabalhei também no Cine Paraíso em Juripiranga e Cine das Almas em Itabaiana.
K.M: “Nem Todas As Manhãs São Iguais” , você roteirizou e dirigiu. Como é seu processo de escrita e produção? O que esse filme representa na sua história?
Sempre que vou escrever, é porque algo me tocou e despertou um insight. Gosto de observar os ambientes e as pessoas.
F.M: Esse é o meu quinto filme enquanto diretora e roteirista, mas o primeiro realizado com algum financiamento, por isso o considero como um divisor de águas no meu campo profissional. Sempre que vou escrever, é porque algo me tocou e despertou um insight. Gosto de observar os ambientes e as pessoas. Acredito que as melhores histórias saem do que está mais perto de nós e que muitas vezes nem percebemos que pode virar um filme. O “Nem todas as manhãs são iguais” eu escrevi quando meu irmão faleceu. Eu quis homenageá-lo mesmo que em uma obra ficcional e transformar a dor que eu estava sentindo em poesia, mostrando o luto de um ponto de vista infantil. O filme fala sobre a perda de uma avó; gravamos na casa de vovó, com as coisas dela, as fotos dela e nesse momento o curta se tornou ainda mais significativo para mim, pois minha avó faleceu em Janeiro. Eu não sabia, mas já estava homenageando-a e eternizando-a nesse trabalho também. O filme vem recebendo feedbacks positivos por onde tem passado. Até agora, fomos selecionados em 34 festivais e recebemos 28 prêmios pelo Brasil afora.
K.M: O amor pelo audiovisual, o que representa para você produzir essa arte?
F.M: Eu costumo dizer que a arte forma, transforma e educa. E de fato ela é tudo isso, tanto para quem trabalha, quanto para quem consome. O cinema eterniza pensamentos, momentos e nos leva para qualquer lugar. Realmente não me vejo fazendo outra coisa nessa vida, pois quando eu estou criando ou em um set de filmagem, é quando eu me sinto viva de verdade, é quando me sinto inteira! Eu sei que nem sempre o solo é fértil como desejamos, mas eu vou insistindo, arriscando e plantando as minhas sementes aqui na terra.
O cinema eterniza pensamentos, momentos e nos leva para qualquer lugar.

Foto: Arquivo Pessoal
Entrevista e Produção: Karolina Matias



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